Na série a meter-me em discussão alheias e o meu liberalismo é melhor do que o teu:
A mim incomoda-me mais que o Mário Machado, com antecedentes criminais e sem admitir culpa ou arrependimento, tenha tido pena suspensa, que tenha sido condenado a somente quatro anos de prisão (ao que dizem, sem cadastro oficial, porque foi perdoado pela nossa justiça, isto também incompreensível) e cumprido três por cumplicidade em homicídio. Gostava de saber se, agora que foram encontradas armas em sua casa, a pena lhe cairá em cima. Não é isto que é a pena suspensa, em caso de mau comportamento, deverá ser cumprida? Infelizmente, creio que, neste caso, isso não acontecerá.
Estas questões estão ligadas: uma sociedade liberal tem sempre de punir fortemente os excessos. Senão, não sobrevive. A liberdade implica repressão.
A prevenção do crime é anti-liberal. Neste e noutro casos.
No entanto, ser liberal não deve ser um fim em si mesmo. Eu tento nunca partir conscientemente do Qual é a posição liberal neste caso? (embora admito que o faça, tento combatê-lo por honestidade intelectual). Tento partir de quais são os valores em conflito e quais os trade-offs? O liberalismo é apenas um desses valores.
Quando se trata de coisas perigosas para vidas humanas (e os nacionalismos violentos estão nesta categoria), talvez haja compromissos a fazer. Ofende-me o liberalismo que a GNR vigie o PNR, sim claro. Mas também, me ofenderia a mais elementar lógica de eficácia que eu peço das polícias, se não o fizessem. A prevenção do crime é anti-liberal, mas não defendo o liberalismo über-alles. Aqui, onde os custos de um erro são elevados, um certo utilitarismo é necessário.
Voltando ao caso do Mário Machado, um caso de uma personagem que já é mediática, um caso em que os nacionalistas deviam ter tido uma resposta clara sobre que é e não é admissível em Portugal. Infelizmente, talvez a tenham tido.
2 responses so far ↓
1 António Costa Amaral // Jul 31, 2006 at 15:03
Louvo o tom sensato do post, mas…
O policiamento das actividades pacíficas de angariação de militantes de partidos legais, sejam quais forem as forças políticas envolvidas, não tem justificação possível numa democracia liberal.
Se há suspeitas que o PNR desenvolve actos ilegais, o caso é de Judiciária, não de GNR. Se naquele partido há quem se predisponha a agir ilegalmente (coisa diferente de verbalizar ideias anti-sociais), então que seja vigiado na proporção da sua perigosidade – mereceu-o! – o que é muito diferente de exercer controlo ou intimidação policial sobre manobras de propaganda política, por muito estúpida que esta seja.
(e com “pena” minha, defendo este princípio até para os cretinos iliberais na outra extremidade do espectro político, esses sim verdadeiramente influentes na sociedade portuguesa…)
2 aLaíde Costa // Jul 31, 2006 at 15:26
«Quando se trata de coisas perigosas para vidas humanas[...] talvez haja compromissos a fazer», creio que nestes caso há naturalmente necessidade de limitação e repressões…
entretanto actualizei o meu post. obrigada ;)
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