- Na altura da apresentação do A380 alguém escreveu que lembrava as apresentações estalinistas. Pelos vistos, a referência mais acertada é russa, mas anterior aos bolcheviques. O lançamento do A380 parece cada vez mais como as aldeias de Potemkin. Impressionantes, mas vazias de conteúdo.
Lançado pelo orgulho da Europa, hoje o A380 transforma-se numa pedra à volta do pescoço da Airbus. Os custos disparam porque o avião ainda não estava acabado e os compradores são, afinal, menos do que os que se previa (ainda faltam metade dos necessários para a empreitada não dar prejuízo). Se sempre houve um elemento de wishful thinking nas previsões, o resultado é pior do que previam os pessimistas.
Depois de anos de domínio da Airbus, a Boeing voltou a ser o maior constructor. Nem sequer é renhido: tem o dobro das encomendas da Airbus que está envolta em escândalos. É disto que nos orgulhamos, nós europeus?
- O projecto do túnel da Mancha, projecto antigo (séc XIX), foi lançado por dois países que precisam de se afirmar na cena internacional: A Inglaterra, após um pós-guerra desastroso em termos económicos e sociais, voltava a ser um país de cabeça erguida com a Thatcher. A França, após os 30 anos gloriosos do pós-guerra, começava a patinar com o Miterrand. Um precisava de dizer estamos de volta, o outro ainda aqui estamos.
Afinal havia outra e eram as low-cost. O tunel nunca teve metade dos clientes que os optimistas previam e que eram necessários para justificar economicamente a obra. A emergência das companhias aereas de low-cost (que podia ser prevista por quem olhasse para o outro lado do Atlântico: nos EUA, os voos tinham baixado enormemente de custo com a liberalização do mercado).
- Acho que é importanto relembramo-nos disto, agora que nos preparamos para gastar biliões com projectos de orgulho nacional como o TGV e a Ota.
Onde estão os milhares de pessoas a quererem fazer Lisboa-Madrid de comboio? Fora do percurso Lisboa-Porto (e este podia ser servido, a um custo muito mais baixo, corrigindo o percurso do pendular; quase sem diferença no tempo de viagem), nenhum dos outros percursos alguma vez vai ter metade dos passageiros que hoje se afirmam que terão na fantochada que são os “estudos” do governo.
Airbus, Tunel, TGV, Ota
October 29th, 2006 · 5 Comments
Tags: Economia · Liberalismo · Ota e TGV · Portugal
5 responses so far ↓
1 Luís Lavoura // Oct 30, 2006 at 10:07
Que eu saiba, o túnel da Mancha não tinha sucesso já muito antes do recente aparecimento das low cost. O seu insucesso nada tem a ver com as low cost. Tem a ver com o facto de as pessoas não prescindirem do seu automóvel. O túnel da Mancha é apenas ferroviário, e as pessoas preferem meter-se num ferry-boat levando os seus carros consigo.
2 Luís Lavoura // Oct 30, 2006 at 10:09
O Reino Unido não ergueu a cabeça devido à Thatcher, mas sim devido ao começo da produção de petróleo no Mar do Norte. Foi isso que trouxe vitalidade económica a um país que se encontrava em longo declínio.
Agora que a produção de petróleo do Reino Unido está a decrescer rapidamente, palpita-me que o glamour económico desse país vá perder boa parte do seu brilho.
3 AA // Oct 30, 2006 at 12:09
numa pedra à volta do pescoço da Airbus
Se fosse um albatroz, a imagem era perfeita!
(mas uma empresa que está a afundar-se, também serve) :)
4 luispedro // Oct 30, 2006 at 13:18
1) Eu creio que se pode levar o carro no comboio.
2) Só o petróleo não explica tudo. A Holanda teve problemas com o mesmo Petróleo do Mar do Norte (a doença holandesa) porque não tinha flexibilidade para lidar com a inflação.
“Agora que a produção de petróleo do Reino Unido está a decrescer rapidamente, palpita-me que o glamour económico desse país vá perder boa parte do seu brilho.”
Pensa então que vai ganhar o Gordon Brown ;-)
5 ... // Nov 1, 2006 at 01:15
“mas uma empresa que está a afundar-se, também serve”
a Airbus está muito longe da afundar-se. muitos disseram o mesmo da Boeing. eu neste caso sigo o conselho da Morgan Stanley: buy.
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