Na série isto não tem nada a ver com os professores:
Todos os sistemas burocráticos têm um problema com a avaliação. Querem ao mesmo tempo duas coisas: (1) avaliação “objectiva” e (2) avaliação que faça sentido. Estes dois objectivos são contraditórios. Nenhuma avaliação objectiva faz muito sentido e nenhuma avaliação que faça sentido é totalmente objectiva.
A melhor solução burocrata para este problema é a senioridade. É objectiva (reduz-se a um número simples, o número de anos que a pessoa trabalhou) e tem alguma ligação com a capacidade de trabalho.
Outra solução já tentada foi o de contar as formações. O resultado foi o aparecimento de milhares de “formações” idiotas, o encher das universidades de mestrados fáceis. Tal como a moeda má afasta a moeda boa; o enfâse na contagem das formações, desvalorizou as formações.
Não há verdadeiramente outra solução numa burocracia. Quando estas duas soluções falham, há pouco que se consegue fazer.
Uma avaliação subjectiva é quase inaceitável. Claro que fora da burocracia, quase todas as avaliações têm critérios subjectivos. Quem é contratado, quem é promovido, quem é despedido; é tudo avaliado subjectivamente. Quando eu decido ir a este e não àquele supermercado, há subjectividade. Compro esta marca e não aquela, há subjectividade.
Subjectividade não significa aqui arbitrariedade. Longe disso. Todas estas decisões têm também bases na realidade e componentes objectivos. Na maioria destas decisões, até posso explicar o meu raciocínio. No entanto, a decisão final é feita por uma decisão pessoal que é mais do que a aplicação de uma fórmula matemática. As burocracias gostam de fórmulas matemáticas.
Uma burocracia lida muito mal com avaliações subjectivas. Em qualquer grande organização, estas tornam-se disfuncionais. No caso das organizações estatais, a disfunção é sempre maior. Porque não só as burocracias são maiores, praticamente imortais (os vícios acumulam-se ao longo dos anos—os sistemas estatais funcionam sempre melhores logo depois de serem lançados), e insulam-se melhor das pressões exteriores.
Assim, um sistema subjectivo numa grande burocracia estatal funcionará mal. Transformar-se-á num jogo de amiguismos, de caciquismo. Não é problema dos detalhes, é dos fundamentos do sistema.
Não há solução burocrática para o problema da avaliação da burocracia.
7 responses so far ↓
1 Token // Mar 9, 2008 at 19:49
O país estagia para a violência criativa. Em Portugal ainda podemos ver agredidos inconscientes em linhas de comboio ou amarrados no mato de rosto barrado em mel, vítimas nuas atadas em par com um spray e um isqueiro à disposição, explosões em bombas de gasolina para desviar atenções de assaltos, sequestrados em câmaras de gás munidos de arma de fogo, sacos de armas brancas largados junto a escolas, discotecas e bairros sociais… Tortura da água com óleo de bateria de carros, excisão de órgãos genitais a transeuntes, vísceras domésticas largadas diante de cafés, atropelamento múltiplo e fuga intencional em zonas não vigiadas, prostitutas empaladas, água inquinada distribuída a vagabundos, seringas com sangue contaminado abandonadas em escolas básicas e cinemas, jovens estrangulados com gravatas de arame farpado, obesos marcados como gado, gangues em jogos de basebol com vítimas ainda vivas… Calma!
Não há tempo a perder sem mecanismos de defesa, o crime é cada vez mais sofisticado. A ver vamos encontrar corpos estatelados de quedas elevadas, tiros intencionais na coluna vertebral, estropiados abandonados no mato, cães degolados ao vivo em creches, drive-by junto a colégios, membros humanos incapacitados por tiros de shotgun, cabeças de gato largadas em transportes públicos, taxistas manetas por machadada, cemitérios em chamas, suásticas gravadas em igrejas, padres coroados com arame farpado, médicos tornados cegos e obrigados a beber soda cáustica. Ainda há muito racismo em Portugal, cada carapinha é um alvo, cada cabeça rapada tem uma goela a mais… Calma!
O país anda adormecido… Cada incêndio é uma oportunidade de despojo de cadáveres, basta desfazer a dentadura com uma barra ou bastão, e deixar soda cáustica fazer o resto. Um corpo calcinado deixa pouco para identificação no caso de ilegais, principalmente se estiver numa poça de lixívia com tripas de animais. Há também o caso de deixar o corpo de pés atados, grupos de corpos resultantes de operações distintas, ossadas roubadas, animais ou objectos estranhos dissimuladores sugestivos de hábitos, golpes pos-mortem tudo para confundir a judiciária, ou sacos de combustível junto a arbustos para confundir os bombeiros. Vamos ter calma com a criminalidade criativa em Portugal.
Carros em vez de armas… Quantos querem testar a suspensão cilindrando um corpo humano? A imagem de um veículo que não travou a tempo e esmaga as costelas perfurando os pulmões de um peão em convulsão, desdentado, de rosto rasgado tossindo sangue, enquanto o filho chora e outros assistem ao vivo a uma morte muda e certa sem meios de socorro, com o condutor em fuga, fica na memória. Portugal apela à calma nas estradas…
Viaturas roubadas com armas de fogo sem execução de ocupantes ganha tradição… Ainda podemos ver condutores agredidos com barras de ferro ou coronhadas e cilindrados pela própria viatura, ou fechados na mala para serem largados de uma ponte, ou ainda amordaçados, atados e amarrados a passageiros ou pneus banhados em combustível em chamas com uma poça de material inflamável à vista ou obrigados a rolar até uma ravina ou fosso de excrementos, ou simplesmente amarrados no interior de uma viatura em chamas… Vamos ponderar a real situação do país, Portugal precisa!
2 Luís Lavoura // Mar 10, 2008 at 12:44
A questão não é a “burocracia”. Burocracia é uma coisa que existe em qualquer grande empresa.
A questão é o Estado. Substitua “burocracia” por “Estado” em todo o post.
A questão é que o Estado tem por obrigação legal, que todos compreendemos, fazer escolhas não-discriminatórias entre os cidadãos e empresas. Espero que o Rabbi compreenda este princípio básico.
É claro que é extremamente difícil fazer tais avaliações não-discriminatórias, isto é, objetivas e não subjetivas. Logo, essa obrigação do Estado é difícil ou impossível de alcançar.
É, não obstante, uma obrigação que todos compreendemos e aceitamos.
Não podemos aceitar que, num concurso entre três empresas para a construção de uma estrada, seja escolhida a empresa A e rejeitadas as empresas B e C apenas porque o diretor-geral das estradas “acha” que a empresa A é melhor.
Não podemos aceitar que, num concurso entre o Rabbit e o Horse para a concessão de uma colsa de Estudo pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, esta última escolha o Horse apenas porque ele é sobrinho do afilhado da amante do presidente da FCT.
3 MR // Mar 10, 2008 at 14:16
Lavoura, substitua-se então os serviços prestados pelo estado, no máximo possível, por privados.
Dessa forma os clientes (contribuintes) também podem fazer a sua própria avaliação subjectiva de qual a o melhor prestador do serviço pretendido. Porque é melhor, ou do primo, ou porque sim ou porque não.
Não acha desejável que se caminhe por aí?
4 Luís Lavoura // Mar 10, 2008 at 14:42
MR. não deite fora o bebé com a água do banho.
Eu acho desejável que se caminhe por aí, como Você diz, mas isso tem que ser feito com cuidado, porque pode levar a resultados ainda piores.
Por exemplo, no caso da educação, dado o fraco nível cultural e científico do povo português e o baixo valor que, na sua generalidade, ele atibui à educação, é de temer que, se fossem os pais a escolher, tenderiam a escolher as piores escolas em termos de qualidade. Ou seja, escolheriam escolas que tomassem bem conta dos filhos, que lhes dessem de comer, que estivessem abertas das 8 às 20 horas, e que passassem de ano as crianças com um mínimo de complicações… mesmo que tivessem um mau ensino.
De qualquer forma, o que eu pretendi elucidar no meu comentário, foi que o Estado terá sempre que fazer avaliações (por exemplo, avaliar que construtora é que deve construi uma estrada), e será sempre sua obrigação fazer avaliações objetivas (porque o Estado não pode discriminar subjetivamente entre cidadãos ou entre empresas). Logo, não vale a pena andarmos a carpir o facto de a objetividade ser um limite impossível de alcançar, como é feito neste post. O Estado tem a obrigação de ser o mais objetivo possível nas avaliações que faz, mesmo sabendo que a objetividade total é impossível.
5 MR // Mar 10, 2008 at 19:06
“Por exemplo, no caso da educação, dado o fraco nível cultural e científico do povo português e o baixo valor que, na sua generalidade, ele atibui à educação, é de temer que, se fossem os pais a escolher, tenderiam a escolher as piores escolas em termos de qualidade.”
Será?!? Tenho as minhas dúvidas. E de qualquer maneira, se a educação é obrigatória, o governo apenas dá “alvará” a escolas com parâmetros mínimos de qualidade.
Seja como for, parece-me que não se ficaria pior do que agora.
6 MR // Mar 10, 2008 at 19:07
E óbviamente, “O Estado tem a obrigação de ser o mais objetivo possível nas avaliações que faz, mesmo sabendo que a objetividade total é impossível.”
7 site admin // Mar 11, 2008 at 00:25
Caro Luís Lavoura,
(1) eu acho que estes problemas acontecem nas grandes empresas. Aí, há outros mecanismos de controlo, mas os problemas estão lá.
(2) Os concursos para bolsas da FCT são avaliados por juri. Não por critérios puramente objectivos.
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