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Medicina e Religião

March 28th, 2006 · 1 Comment

Na série quando eu fôr grande quero ser um filósofo social:

  1. Na sociedade Ocidental, separou-se o Estado da Igreja. Isto foi um facto político e social.

    Na sociedade Ocidental, separou-se a Medicina da Religião. Isto foi um facto tecnológico e científico, mas cujo impacto é não menos importante do que a separação igreja-estado.

    (Não foi acidental o uso de Igreja e Religião nas frases acima).

  2. Nenhuma das duas separações é pacífica. A Igreja continuou a ter um peso importante na política. A medicina ocidental é denegrida por ser fria, mecanística e as alternativas holísticas das Novas Eras (importadas dum Oriente real ou imaginado) são cada vez mais tidas em conta.

    A maioria das terapias holísticas é banha-da-cobra (a expressão banha da cobra é aqui quase literal). No entanto, há no entanto uma necessidade humana para uma terapia holística, espiritual.

  3. No entanto, estas “medicinas”, a partir do momento em que se tornam holísticas, deixam de ser ciência. Ou, continuam ciência, mas não já no sentido de ciência natural (falseável e sujeita ao teste do tempo), mas no mesmo sentido em que a teologia é uma ciência (assumindo uma série de pressupostos não-falseáveis, faz-se uma análise lógica e acumula-se conhecimento).
  4. E isto não é problema nenhum, não vale a pena começar com jacobinismos ateus. Mas é um problema político a partir do momento em que se dão poder a estas pessoas e se confundem questões técnicas com questões de valores.

    O sonho progressista na forma pura é, diria eu, exactamente o de transformar questões políticas, de valores, em questões técnicas (substituir o agir pelo fazer diria H. Arendt, que eu cá não invento nada, copio os grandes). Os moralistas de bata médica são um exemplo disso mesmo.

    Querem-nos explicar como viver a nossa vida, mas isto não tem resposta comum. E embora os padres nos possam ajudar nisso, não esqueçamos que um padre de bata branca (ou com um curso de psicologia), não sabe mais sobre como é que se deve viver do que um padre de batina preta. Sem lhes negar o lugar na sociedade (as religiões, tanto tradicionais, como Novas Eras, como os freudianismos têm lugar na sociedade, claro), ponhamo-las no sítio delas: na vida privada de cada um, para cada um procurar aqueles que lhe falam ao íntimo.

  5. Tentando curar as “epidemias” causadas por “doenças do comportamento” (fumar, sedentarismo, etc.), os tecnocratas de bata branca confundem o que é o papel técnico de informar com o papel de escolher. Eu posso fazer uma escolha informada e comer bife e batatas fritas ao jantar, com dois ou três copos de vinho acima do recomendado, e acabar a refeição com um café e um cigarro. Não é crime, chama-se viver a minha vida.

    Já tinha escrito sobre isto quando a Organização Mundial de Saúde deixou de contractar fumadores.

  6. Já agora, liberalizem as drogas que ninguém tem nada que dizer se eu posso ou não fumar uma ganza.

Tags: saúde

1 response so far ↓

  • 1 Odysseas // Nov 19, 2007 at 17:16

    Nice…

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