Na série quando eu fôr grande quero ser um filósofo social:
- Na sociedade Ocidental, separou-se o Estado da Igreja. Isto foi um facto político e social.
Na sociedade Ocidental, separou-se a Medicina da Religião. Isto foi um facto tecnológico e científico, mas cujo impacto é não menos importante do que a separação igreja-estado.
(Não foi acidental o uso de Igreja e Religião nas frases acima).
- Nenhuma das duas separações é pacífica. A Igreja continuou a ter um peso importante na política. A medicina ocidental é denegrida por ser fria, mecanística e as alternativas holísticas das Novas Eras (importadas dum Oriente real ou imaginado) são cada vez mais tidas em conta.
A maioria das terapias holísticas é banha-da-cobra (a expressão banha da cobra é aqui quase literal). No entanto, há no entanto uma necessidade humana para uma terapia holística, espiritual.
- No entanto, estas “medicinas”, a partir do momento em que se tornam holísticas, deixam de ser ciência. Ou, continuam ciência, mas não já no sentido de ciência natural (falseável e sujeita ao teste do tempo), mas no mesmo sentido em que a teologia é uma ciência (assumindo uma série de pressupostos não-falseáveis, faz-se uma análise lógica e acumula-se conhecimento).
- E isto não é problema nenhum, não vale a pena começar com jacobinismos ateus. Mas é um problema político a partir do momento em que se dão poder a estas pessoas e se confundem questões técnicas com questões de valores.
O sonho progressista na forma pura é, diria eu, exactamente o de transformar questões políticas, de valores, em questões técnicas (substituir o agir pelo fazer diria H. Arendt, que eu cá não invento nada, copio os grandes). Os moralistas de bata médica são um exemplo disso mesmo.
Querem-nos explicar como viver a nossa vida, mas isto não tem resposta comum. E embora os padres nos possam ajudar nisso, não esqueçamos que um padre de bata branca (ou com um curso de psicologia), não sabe mais sobre como é que se deve viver do que um padre de batina preta. Sem lhes negar o lugar na sociedade (as religiões, tanto tradicionais, como Novas Eras, como os freudianismos têm lugar na sociedade, claro), ponhamo-las no sítio delas: na vida privada de cada um, para cada um procurar aqueles que lhe falam ao íntimo.
- Tentando curar as “epidemias” causadas por “doenças do comportamento” (fumar, sedentarismo, etc.), os tecnocratas de bata branca confundem o que é o papel técnico de informar com o papel de escolher. Eu posso fazer uma escolha informada e comer bife e batatas fritas ao jantar, com dois ou três copos de vinho acima do recomendado, e acabar a refeição com um café e um cigarro. Não é crime, chama-se viver a minha vida.
Já tinha escrito sobre isto quando a Organização Mundial de Saúde deixou de contractar fumadores.
- Já agora, liberalizem as drogas que ninguém tem nada que dizer se eu posso ou não fumar uma ganza.
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1 Odysseas // Nov 19, 2007 at 17:16
Nice…
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