Há uma técnica de argumentação comum que consiste em mudar o assunto. No caso deste referendo, parece que toda uma campanha é simplesmente feita a mudar de assunto, a desconversar.
1. Não devia haver referendo. Ouve-se, sempre-se se ouviu.
Eu penso que, tendo havido referendo em 1998, deve voltar a haver um referendo em 2007; mas isso não interessa nada. Mesmo que não devesse ter sido convocado o referendo, o facto é que foi. Não vamos mudar isso. Não discutamos uma decisão que já foi feita a poucos dias da votação. No fundo, não mudemos de assunto. Estamos é chateados por ter de responder a uma pergunta complicada, mas temos a responsabilidade de o fazer.
2. O aborto é demasiado complicado para se poder responder Sim/Não. Ouve-se, sempre-se se ouviu.
É verdade, o aborto é complicado. Cada situação que leva uma mulher a abortar é complicada. Mas também é verdade que a pergunta não é “Aborto?” Não estamos a referendar o aborto. A pergunta é se vamos despenalizar ou não o aborto ou se vamos manter uma penalização judicial com os julgamentos e as prisões que isso implica.
A questão do aborto é complexa. A pergunta do referendo é simples.
Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?
Só posso responder que Sim.
Sem discutir mais nada, sem discutir se é bom ou mau, se é fácil ou complicado, caro ou barato, comum ou raro; posso responder que não quero prender nem a mulher nem quem a ajuda.
3. Usando uns argumentos contorcidos, parece que até certos elementos que fazem campanha pelo Não dizem querer despenalizar o aborto. Preto é branco. E vice-versa. Sim é Não. E vice-versa.
Mas, por muito inteligentes que parecem os contorcinismos, não há volta a dar-lhe: votar Não é querer penalizar as mulheres.
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