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Anda aí muita esquerda em pulgas por os EUA falarem num sistema de saúde nacional à canadiana. (Se for aprovado algum plano, mais provável que fiquem com um sistema à alemã ou à francesa que é mais parecido com o já existe nos EUA do que é o sistema canadiano).
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Embora perceba que queiramos sempre que outros países adoptem as nossas ideias e talvez exista alguma preocupação genuína com os gordos e ignorantes americanos de poucas posses, não sei se é no melhor interesse da Europa que os EUA escolham um sistema à europeia. Provavelmente, seria mau para nós.
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Um sistema de saúde mais capitalista é bom para produzir novas técnicas médicas, novos medicamentos, novo equipamento. Traz custos, mas essa é uma das vantagens. A maioria dos novos medicamentos é produzida para o mercado americano primeiro e vendida no resto depois.
- Nós, europeus, temos vivido as vantagens do sistema americano, sem pagar nada em custos (os custos não são só financeiros: há a questão moral/estética da igualdade de benefícios). Se os EUA se fartarem de pagar, nós perdemos também.
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Ainda não vi nenhuma ideia muito boa (não significa que não exista, mas duvido) sobre como ter um sistema que não tenha várias velocidades (para quem tem mais dinheiro ter acesso a outros produtos) e que mantenha o ritmo de inovação.
Os EUA discutem se devem adoptar uma política à europeia de limitar o que pagam por medicamentos e os lucros das farmacêuticas. Os primeiros passos foram já dados com a nacionalização do sistema de saúde para os mais velhos pelo George W Bush: a maior expansão do estado social americano nos últimos 30 anos. Se isso vier a acontecer, perdemos todos: americanos e não-americanos. Os americanos são, aliás, os que menos perdem, porque recebem parte dos benefícios na forma de medicamentos mais baratos. Nós só perdemos porque já temos medicamentos baratos, vamos é ter menos medicamentos no futuro.
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A questão da saúde nos EUA não me parece que possa ser discutida sem falar em luta de gerações: aos mais velhos interessa um sistema barato, nacionalizado (até porque os sistemas públicos tendem a funcionar bem no início); aos novos interessa um sistema capitalista que produza as inovações que lhes vão salvar a vida daqui a 20 anos. Não é por acaso que a nacionalização começou pelos mais velhos.
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(Tendo dito isto, o sistema americano está cheio de parvoíces, a começar pela ligação do seguro de saúde ao emprego; uma má ideia, fruto do acidente histórico [a certa altura o Roosevelt proibiu que se subisse os salários, então as empresas começaram a dar benefícios não-monetários] e mantido por causa do regime fiscal [fica muito mais caro, em termos de impostos, receber salário e comprar um seguro fora da empresa do que ficar com o seguro da empresa] e da inércia política [esta administração ainda tentou mudar parcialmente esta regra, mas não passou no Congresso].)
Sistema de Saúde nos EUA
June 30th, 2007 · 20 Comments
Tags: Portugal
20 responses so far ↓
1 lobotomias // Jul 1, 2007 at 01:01
“Os EUA discutem se devem adoptar uma política à europeia de limitar o que pagam por medicamentos e os lucros das farmacêuticas.”
Não percebo… Aparentemente todo o Post se resume a esta frase, e bom eu não conheço assim tão bem o sistema americano… mas porra as seguradoras não fazem controlo de custos sobre o que gastam com medicamentos? Teoricamente e pelo que se houve falar um controlo muito maior e mais eficaz do que o dos estados europeus.
De qualquer maneira é sempre bom ouvir o Luis Pedro falar sobre os custos dos sistemas capitalistas.
“Um sistema de saúde mais capitalista é bom para produzir novas técnicas médicas, novos medicamentos, novo equipamento. Traz custos”
e mais à frente “(os custos não são só financeiros: há a questão moral/estética da igualdade de benefícios).”
musica para meus ouvidos.
Igualdade de benefícios -Ah , meu caro amigo, ainda te verei aderir à esquerda revolucionária.
Serás sempre bem vindo.
2 lobotomias // Jul 1, 2007 at 01:02
pelo que se ouve… claro
3 Miguel Madeira // Jul 1, 2007 at 15:41
“Um sistema de saúde mais capitalista é bom para produzir novas técnicas médicas, novos medicamentos, novo equipamento. Traz custos, mas essa é uma das vantagens. A maioria dos novos medicamentos é produzida para o mercado americano primeiro e vendida no resto depois.”
Pelo que sei (mas o Luis Pedro que está aí saberá melhor), o que tem sido proposto nos EUA é um sistema em que os serviços de saúde continuam a ser prestados por privados mas pagos pelo Estado (ou seja, uma nacionalização dos seguros de saúde) – até me dá a ideia que o “esquerda” norte-americana defende para a saúde é mais ou menos o que a “direita” defende para a educação (com os vouchers). Sinceramente, não vejo em que medida isso iria fazer as companhias farmacêuticas inovarem menos – afinal, que diferença lhes faz que quem paga as facturas se chame “Ministério da Saúde”, “Seguros Serenidade, S.A.” ou cidadão John Doe?
Na verdade, como um sistema de seguro estatal provavelmente até iria aumentar o consumo de medicamentos (ou de operações, ou seja o que fôr), e o custo de desenvolver medicamentos (ou novas técnicas médicas) é um custo fixo, à partida o seguro estatal até aumentaria o incentivo para desenvolver novos produtos.
4 Miguel Madeira // Jul 1, 2007 at 15:48
“Tendo dito isto, o sistema americano está cheio de parvoíces, a começar pela ligação do seguro de saúde ao emprego”
Há uma excelente razão para a ligação do seguro de saúde ao emprego – os seguros de saúde, à partida, têm um problema de selecção adversa: em principio, os individuos mais propensos à doença tendem a subscrever mais seguros de saúde que a média, o que faz subir os prémios, afastando ainda mais os indivíduos mais saudáveis, fazendo subir ainda mais os prémios…
Com o seguro a vir junto com o emprego, essa tendência deixa de existir, já que a clientela das seguradoras passa a ter um nível de propensão à doença similar ao do individuo médio.
5 hugo // Jul 1, 2007 at 21:47
isso quer dizer que quem tenha até agora defendido o sistema de saúde americano apenas o fazia em benefício da indústria farmacêutica?
6 site admin // Jul 1, 2007 at 23:16
1. Nos EUA, os medicamentos são bastantes mais caros do que no resto do mundo desenvolvido. A prova são os vários serviços (ilegais) de reimportação de medicamentos. Este números são típicos: http://www.stopfda.org/june99-ripoff.htm.
A razão é simplesmente que ou (1) o governo é o único comprador e pode impor preços baixos, ou (2) o governo impõe preços baixos mesmo quando os seguros são privados.
2. Caro Miguel, eu escrevi que os EUA deviam acabar com um sistema tipo continental (França ou Alemanha) que são sistemas baseados (com variantes entre eles, claro) em provisão privada e um misto de pagamento privado/público. Estes sistemas estão aliás muito mais próximos do sistema americano actual do que do nosso.
3. O problema da selecção adversa não me convence totalmente.
É sempre possível proibir a discriminação excepto na base da idade, por exemplo; como funciona na Suíça.
4. Caro Hugo, não é a única razão para defender o sistema americano.
Além disso, não tem nada a ver com defender os benefícios da indústria, mas dos futuros clientes. Não são interesses sempre alinhados e muitas vezes contrários. A indústria gosta das coisas mais reguladas, lucros garantidos, protecção aos grandes, a inovação prefere sistemas mais dinâmicos e incertos, sem protecção a ninguém. Cada vez que se mete o estado ao barulho, tende-se a ir na direcção da grande indústria contra os pequenos (por estes não estarem sentados à mesa e, em política, quem não está sentado à mesa é porque está no menu do dia).
7 Farmácia Livre // Jul 1, 2007 at 23:37
Pela livre abertura de farmácias.
8 lobotomias // Jul 2, 2007 at 01:45
“Nos EUA, os medicamentos são bastantes mais caros do que no resto do mundo desenvolvido.”
hummm, então o mercado mais livre e concorrencial não faz baixar os preços…
De qualquer modo os preços dos medicamentos serem mais caros, não quer dizer que o custo global ou a margem de lucro das industrias seja maior. A escolha do medicamento parece-me mais importante, e aí as seguradoras devem ter um papel muito mais duro no controlo dos custos, ou não?
9 luispedro // Jul 2, 2007 at 03:21
“hummm, então o mercado mais livre e concorrencial não faz baixar os preços…”
Não tanto como o uso da força.
10 Miguel Madeira // Jul 2, 2007 at 13:38
“O problema da selecção adversa não me convence totalmente.
É sempre possível proibir a discriminação excepto na base da idade, por exemplo; como funciona na Suíça.”
A proibição da discriminação não resolve o problema da selecção adversa – até o agrava. A proibição da discriminação faz baixar os preços para os clientes potencialmente doentes e subir os preços para os clientes potencialmente saudáveis, logo a tendência para a carteira de clientes das seguradoras ser potencialmente mais doente que a população média sai reforçada.
11 JoaoMiranda // Jul 2, 2007 at 13:50
««Sinceramente, não vejo em que medida isso iria fazer as companhias farmacêuticas inovarem menos – afinal, que diferença lhes faz que quem paga as facturas se chame “Ministério da Saúde”, “Seguros Serenidade, S.A.” ou cidadão John Doe?»»
A diferença está nos incentivos de um e de outro. O Ministério da Saúde tenderá a paga os interesses do eleitor médio. As companhias de seguros a pagar os interesses de acordo com a segmentação do mercado que conseguir fazer. Provavelmente menos uniforme e com a possbilidade de financiar medicamentos topo de gama e/ou experimentais.
Em Portugal o MS não comparticipa os medicamentos mais recentes. Por exemplo, para a Artrite Reumatoide o Enbrel só é usado nos hospitais para casos muito grves ou para crianças.
12 luispedro // Jul 2, 2007 at 13:51
Eu percebo o modelo teórico da selecção adversa, mas duvido da grandeza dos efeitos na prática.
Em qualquer sistema, a maioria das pessoas vai ter seguro de saúde. E há razões para crer que quem não tem é exactamente quem tem pior saúde (os mais pobres, os mais distraídos, os menos prevenidos….)
13 site admin // Jul 2, 2007 at 17:01
Como que de propósito:
http://www.janegalt.net/archives/009875.html
14 pedro // Apr 11, 2008 at 18:29
vejam o relatório 2ooo da Organização Mundial de Saúde e, vejam os resultados dos lobies dos seguros de saúde nos EUA
E aí sim quero ver se defendem ainda o privado!
15 Where to buy rohypnol. // Jul 16, 2008 at 22:48
Buy rohypnol….
Buy rohypnol. Where to buy rohypnol….
16 João Coimbra // Aug 19, 2009 at 21:04
Quanto a crença de que só a obtenção de mais rendimento, retribuição pecuniária, é que faz com que as pessoas sejam mais eficientes em descobrir novos medicamento eficazes, não acontece, pelo contrário, a facilidade de enganar o público ajudada pela propaganda que recebe altos rendimentos também, essa combinação impõe as doenças nas pessoas. Muitos novos medicamentos não são nada mais que os velhos maquiados, não trazem nada de novo. Os EUA foram palco de uma tentativa de vender uma vacina contra gripe suína que fez com que as pessoas ficassem mais doentes e até as levassem a morte.
Veja o que é feito com a depressão (melancolia) atualmente. Os desenvolvimentos de medicamentos para nos deixar bem com a vida, inertes.
O homem faz parte da natureza, preservemos a natureza, podemos pelo menos de apontar os excessos.
17 António Carvalho // Sep 10, 2009 at 11:56
Ouvi precisamente há poucos minutos na Antena1 o Presidente dos EUA Obama defender no Senado um serviço de Saúde para todos os americanos sem excepcão. Mais ainda: que existem mais de 47 milhões de americanos sem assistência médica! São estes os direitos humanos que os EUA dizem defender? Não, muito obrigado!!!
18 BB // Dec 4, 2009 at 18:41
ola senhor Luis Pedro, eu sou uma aluna do dácimo segundo ano e estou a fazer um trabalho para a disciplina de ciências poléticas que consiste na escrita de uma reflexão acerca da temática que aqui discute, o sistema de saúde americano. a questão é que eu não percebo nada de política ou economia ou qualquer tema relacionado com a regência de um país actual. (uma grande falha cultural que tento corrigir) e por isso queria pedir lhe, caso possível, que escrevesse um post que explicasse na íntegra o funcionamente e as questões que tomam este assunto. obrigada
19 BB // Dec 4, 2009 at 18:42
*décimo
*políticas
20 marcel // Jan 29, 2010 at 13:49
quem disse q os remedios nos eua são mais caros q no brasil!!
morei ano passado la e me apavorei qdo voltei ao brasil .
tudo mais caro ,de gasolina a comida a remedios etc etc.
so ganha no valor de aluguel e bebidas e cigarros ,q incoerencia não !
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