Num artigo longo, mas que vale a pena ler sobre a chamada ciência da felicidade e o capitalismo (sumário: o capitalismo é bom e eu gosto), Will Wilkinson escreve assim sobre o tema do PIB:
Many people seem to think that a government’s emphasis on measurements like GDP indicate a kind of collective affirmation of materialist goals, encouraging a narrowly materialist attitude at war with more exalted values. But this is simply a mistake. The very function of money is to serve as a neutral medium of exchange [...].
The relative value neutrality of money is precisely why the measurement of per-capita wealth is well suited to pluralistic liberal societies; it doesn’t beg many questions about competing conceptions of the good life. Money can’t be converted into anything that someone might value, but it is of the nature of money to be convertible into a phenomenally broad range of values. [...]
By measuring GDP, household wealth, and the like, government is not affirming one set of values over others. It is, in fact, embodying an ideal of liberal neutrality by measuring something that is valuable in varying degrees to all of us.
Não sei o que Rawls diria sobre o assunto.
7 responses so far ↓
1 Miguel Madeira // Sep 4, 2007 at 16:48
O que o Miguel Madeira diz sobre o assunto: ao usar o PIB como medida, não se está a ser neutro entre a opção de trabalhar mais ou tirar umas licenças sem vencimentos de vez em quando; não se está a ser neutro entre a opção de viver num sitio que se gosta mais mas com empregos pior pagos ou mudar-se para um sitio que se gosta menos mas com empregos mais bem pagos; não se está a ser neutro entre a opção de escolher uma profissão que se goste mais mas aonde se ganhe menos e o oposto, etc.
E se o Luis Pedro arranjasse um esquema em que tivessemos que pagar para ler o seu blog, o PIB aumentava mas talvez ficássemos pior (o que o luis pedro ganhava era o que os seus leitores – os que subscreveriam o serviço – perdiam, e ainda havia a perda de utilidade dos que não subscreveriam)
Além disso, há o problema que, mesmo o bem-estar estritamente material não é medido correctamente pelo PIB: se eu pagar aos meus vizinho para vir regar os meus dentes-de-leão e ele me pagar para ir passear com os cães dele, isso daria um aumento do PIB talvez aior que o aumento real de bem-estar (esse efeito pode fazer que, na transição de uma economia de subsistência para uma economia mercantilizada, o PIB apresente taxas de crescimento artificialmente altas).
2 site admin // Sep 4, 2007 at 20:41
Acho que apresenta dois argumentos. Um (a troca não-monetária entre vizinhos) é que as medidas do PIB ignoram a economia informal, o que é verdade. Isso é uma deficiência grave de tais medidas.
O outro (de escolher um emprego mais mal-pago-mas-bom vs. outro mais-bem-pago) não me parece responder verdadeiramente à questão.
A mesma escolha é sempre melhor num país mais rico. Basta ver que quem escolhe o emprego mais mal pago ganha na europa do norte ou nos EUA mais do que quem escolhe o mais bem pago em Portugal. (Trabalhar numa consultora em portugal paga menos do que trabalhar numa non-profit americana).
3 Miguel Madeira // Sep 4, 2007 at 23:21
“A mesma escolha é sempre melhor num país mais rico.”
Não necessariamente – até pode ser que seja assim na prática, mas em teoria é perfeitamente possível uma situação em que, no país A todos os empregos sejam pior pagos que no pais B, mas o pais A tenha um PIB maior por mais indivíduos preferirem os empregos melhor pagos.
Uma variante disto será a opção entre rendimento e tempo livre: há quem argumente que o facto do PIB p.c. norte-americano ser muito maior que o sueco ou o francês não quer dizer que os americanos vivam melhor já que trabalham mais horas e têm menos férias do que os suecos ou os franceses.
4 site admin // Sep 5, 2007 at 01:50
Mas uma pessoa não é um mero agente passivo que “recebe” o emprego. Temos imensa escolha quanto ao trade-off entre trabalho/lazer (escolhas relativas à profissão podem interferir com esta escolha, mas continuam a ser escolhas).
5 Miguel Madeira // Sep 5, 2007 at 09:51
“Mas uma pessoa não é um mero agente passivo que “recebe” o emprego. Temos imensa escolha quanto ao trade-off entre trabalho/lazer”
Sim, e depois? Em que é que isso invalida a minha afirmação que o uso do PIB como medida de bem-estar não é neutro face à escolha trabalho/lazer (já que países em que as pessoas prefiram mais o trabalho – ou o dinheiro que ele proporciona – que o lazer têm um PIB mais alto que os países em que a preferencia dominante seja a oposta)?
6 Rabbit’s blog :: Ganhar Pouco // Sep 29, 2007 at 15:30
[...] conversa com o Miguel Madeira nestas páginas voltou-me à memória quando há uns dias, num “evento social” da faculdade um rapaz [...]
7 Raul Romao // Jul 9, 2009 at 10:38
http://www.pmeportugal.pt/Geral/Colunistas-PME/Colunistas/Joaquim-Cunha.aspx?M=News&PID=151&NewsID=151
Joaquim Cunha, Presidente da Associação PME POrtugal, redigiu um artigo sobre este tema, e neste explora-o bastante complexo…
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